Quase Famosos
Um relato de Gerhard Brêda de sua viagem aos estúdios da MTV em São Paulo ao lado da banda Tereza, vencedora do Festival Universitário MTV.
“Lembre-se: você é o inimigo”, me diz Vinicius Louzada, vocalista da banda Tereza, a vencedora do Festival Universitário MTV, com uma voz rouca e intimidadora durante uma parada no longo caminho que separa o Rio de Janeiro de São Paulo. Não era uma ameaça, era apenas a primeira de muitas citações de cultura pop que os rapazes da banda dispararam pelo caminho. Não que eles, selados quase hermeticamente em suas calças skinny, sejam figuras particularmente intimidantes ou avessas à imprensa. Louzada estava apenas citando o filme Quase famosos, no qual um repórter da Rolling Stone sai em turnê com uma banda para escrever uma reportagem.
Vinicius Louzada é uma pessoa difícil. Uma excentricidade espontânea que beira a insanidade esconde um rapaz até bastante comum. Vestido com botas de couro, um chapéu e uma jaqueta, Louzada projeta uma imagem de rockstar. “Essa jaqueta é velha, comprei em um brechó. É dos anos 80, veja minhas pregas”, diz em tom jocoso, apontando para as pregas da jaqueta. “Ainda tenho minhas pregas”, completa a piada. Entre um uísque e um cigarro, Louzada canta Space Oddity, do David Bowie.
Mateus Sanches, um dos guitarristas, parece ter saltado diretamente dos anos 70. Sua franja reta, cabelos compridos e barba farta contrastam violentamente com o videogame portátil que carrega. “O Mateus é nosso mestre Pokémon”, comenta Vinicius Louzada, enquanto Sanches detalha efusivamente o treinamento de seus monstros virtuais.
João Volpi, o baixista do Tereza, ostenta um frondoso bigode. “Eu tinha barba comprida, mas agora resolvi deixar apenas o bigode”, esclarece o músico. Isso explica porque, em momentos de tensão, Volpi coça uma barba inexistente. Velhos hábitos.
A banda, no saguão do hotelSávio Azambuja, o outro guitarrista, ajuda a quebrar o gelo com histórias pessoais. “Na auto-escola, eu dirigia e levava meu instrutor para o motel, depois ficava esperando”, conta o músico, arrancando gargalhadas. Com uma camisa social semi aberta e usando um óculos Ray-Ban, Sávio transparecia uma imagem de bon-vivant.
Rodrigo Martins senta na penúltima fileira da van. Na banda, fica atrás dos outros músicos, comandando a bateria. O rapaz fala pouco, talvez concentrado nas empolgantes batalhas que Sanches conjurava com seus Pokémons. “Já estamos chegando?” era a pergunta padrão de Rodrigo a cada centena de metros.
Os cinco rapazes do Tereza, acompanhados do amigo e produtor Leonardo Marcolino, iam em direção a São Paulo realizar um sonho de muitas bandas independentes: se apresentar na MTV. Mais especificamente, eles tocariam ao vivo no Acesso MTV, apresentado por Léo Madeira, Sofia Reis e Kika, como prêmio por terem sido os vencedores do Festival Universitário MTV.
Formada por amigos de infância, a Tereza deriva seu nome de uma paixão nunca consumada de todos os membros. “Em algum momento, todos fomos apaixonados pela Tereza”, explica João Volpi. O som da banda é difícil de ser descrito. É algo antigo, com ares sessentistas, mas ainda assim moderno. Isso é provavelmente reflexo do gosto musical dos rapazes. “Eu ouço muito rock antigo, The Who, The Zombies... mas também gosto de algumas coisas pós anos 2000, como Moldy Peaches, Strokes. Gosto muito de coisas lo-fi”, explica Mateus Sanches. “Em comum, a gente gosta de coisas como Libertines, Arcade Fire, Kings of Leon e Vampire Weekend”, diz João Volpi.
Antes da participação no Acesso MTV, a Tereza sente a ansiedade bater. Muito concentrados, os rapazes discutem o repertório minuciosamente. “Não, estas duas músicas não deveriam ficar juntas, as duas tem palmas”, diz Mateus Sanches, visivelmente preocupado. Com tudo resolvido, os rapazes passam o som e tentam conter a ansiedade.
Como todos os momentos que criam expectativas enormes, a participação no Acesso MTV pareceu acabar em um piscar de olhos. No pequeno palco, a Tereza explodiu. Era visível e palpável a empolgação dos rapazes, seja nos backvocals bradados a plenos pulmões, seja na performance explosiva de Vinicius Louzada. O vocalista encara a câmera, dança, sacode a cabeça, parece possuído. “Eu amo a câmera. Ela, infelizmente, não me ama”, brinca. A bateria econômica de Rodrigo encaixa perfeitamente com o baixo encorpado de João Volpi, enquanto os riffs precisos de Mateus Sanches se entrelaçam com a base harmônica urgente de Sávio Azambuja. A voz rouca de Louzada coroa toda a performance com uma sujeira sincera e essencialmente rock’n’roll.
O Tereza mostra seu som no Acesso MTVDepois da participação da banda no Acesso, os rapazes gravam uma bem humorada vídeo-aula, ensinando a tocar uma de suas músicas. “Primeiro, você faz um fá. Depois, um dó. Agora é complicado, pois você volta pro fá. Depois, outro dó”, explica Sávio Azambuja. “Nós não temos músicas difíceis”, destaca o guitarrista.
Saindo da MTV, os rapazes sentem que o dever foi cumprido. A ansiedade paralisante de outrora dá lugar à impaciência. Compreensível. Serão mais de seis horas em uma van, fazendo a jornada de volta. “Agora é concentrar na gravação do clipe, em terminar o CD e fazer o site”, determina João Volpi. A Tereza tem um plano. “Quero ficar rico e famoso rápido”, reclama Rodrigo Martins após algumas horas na van. Bem, podem não estar ricos. Mas estão famosos. Ou quase.